Fundação Instituto Fernando Henrique Cardoso

Diálogos com um Presidente

Insper

22.set.2015 - auditório da Fundação iFHC

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Questão dos alunos

  • Você acha que, sem a presença de Dilma Rousseff na presidência, pode mudar alguma coisa na situação política e econômica do Brasil?
  • Você acha que a renúncia da presidente Dilma está próxima?
  • Hoje em dia, como é possível modernizar a gestão do Estado?
  • Como você compara a época do seu governo com a atual?
  • Como você vê o presidencialismo de coalizão?
  • Historicamente, em que momento houve esse distanciamento entre PT e PSDB?
  • O que é preciso fazer para chegar ao futuro do Brasil?
    Fernando Henrique Cardoso – “Vivemos uma crise, mas não sou tão pessimista assim. Se olharmos cem anos pra trás, o Brasil melhorou. Quando eu nasci, a taxa de analfabetismo era de 70% a 80% da população. Hoje, quase todos têm acesso à escola, embora a qualidade do ensino seja ruim. Partimos de um patamar muito baixo durante todo o Império, quando não houve aumento da renda per capita. Na República, crescemos a taxas elevadas até os anos 80. Nunca tivemos 10% de crescimento anual como a China recentemente, mas a média foi razoável. Depois, houve altos e baixos. O Brasil já tem um presente. Conseguimos, bem ou mal, introduzir elementos de desenvolvimento tecnológico no país. Se não, não teríamos feito a Petrobras nem desenvolvido a tecnologia de extração de petróleo em águas profundas. Não teríamos feito a Embrapa, que revolucionou a agricultura brasileira e hoje é uma das melhores do mundo. Volta e meia, jogamos fora janelas de oportunidade, como aconteceu agora. Na crise de 2008, o governo Lula atuou bem, mas depois entrou numa megalomania. O Pré-sal iria resolver tudo. Quase todo mundo entrou na onda, sinal de que não amadurecemos o suficiente. No momento vivemos um período de escassez, mas as instituições funcionam. Em outras épocas estaríamos discutindo qual era o general (que tomaria o poder); agora, estamos discutindo qual é o juiz (que vai passar o país a limpo)! É uma mudança grande que se deu de 1988 para cá. É mais fácil atender à quantidade do que à qualidade. Às vezes, confundimos um país desenvolvido com ter um PIB (Produto Interno Bruto) grande. Portugal é um país pequeno perto do Brasil, também passou por uma crise séria, mas a saúde, a educação, os transportes e a segurança continuam num bom nível. Temos que focar mais no que é a contemporaneidade, a qualidade de vida. Isso inclui meio ambiente, educação, saúde, segurança. A qualidade de vida tem que ser o centro de nossa preocupação. Gestão, meritocracia e motivação, essas questões que não são mensuráveis tão facilmente.”
  • Quais são as características que um líder precisa ter?
    Fernando Henrique Cardoso – “Se o líder não tem capacitação, é difícil. Mas pode. O (ex-presidente) Lula é um bom exemplo. Ele não tinha, mas se capacitou para a política. É fundamental ter valores e convicção. Se não, não transmite nada. Precisa contagiar o outro. Transmitir para as outras pessoas a mesma paixão que ele tem. O verdadeiro líder muda, não segue. Como diz o brasão de São Paulo: ‘Conduzo, não sou conduzido’. As pessoas gostam de ser conduzidas, mas não por quem elas não conhecem e não confiam. Ninguém gosta do novo. Diz que gosta, mas tem medo. Se o líder não tem coragem, não avança. Vai fazer pesquisa de opinião e seguir o que a média deseja. Em certos momentos, é preciso decidir sem o elemento da certeza. Por isso, tem que ter mais convicção do que certeza. E certas condições psicológicas são necessárias. O líder tem que ter força interior porque atravessa o deserto a toda hora. Certas decisões são tomadas sozinho, no sentido absoluto. O líder deve ouvir porque, sempre que possível, a decisão vem embasada também na opinião ou na vontade de outros. Mas às vezes ele vai contra a maré. Lá dentro dele, precisa dizer ‘eu vou por aqui’. Estou me referindo ao caso do presidente da República, mas numa empresa, também. Para obter uma reforma no Congresso, por exemplo, há casos em que os líderes partidários dizem que o governo vai perder, aí o presidente precisa bancar e dizer ‘Eu fecho a questão, vota’. Se acertar, ganha. Se errar, se arrebenta. Mas uma pessoa pode ser bom líder no governo e mau líder na família. Pode ser bom líder na empresa e mau líder na política. Já convidei líderes empresariais bem-sucedidos que foram um desastre no governo porque não conheciam a jogo da política. São características diferentes em cada situação. Não existe uma única receita.”